Vietnã: Abacaxis e macacos no delta do Mekong
October, 2005Parei numa esquina congestionada de Saigon (Ho Chi Minh City, mais conhecida como HCMC). Quando o sinal verde apareceu, as 12 ou 15 motos que estavam na linha de largada dispararam como se estivessem em um Grand Prix. O ruído era ensurdecedor. O cheiro de gasolina e óleo apenas tolerável.
Existem hoje cerca de cinco milhões de motos em HCMC para transportar os oito milhões de habitantes da maior cidade do país. O número de motos vem crescendo a um ritmo tão louco como o tráfego, a 15% a 20% por ano. O sonho de todo vietnamita é comprar uma Honda 125. A realização massiva dessa aspiração significa que o dinheiro está chegando nas mãos das classes mais desprovidas.
Para fugir da poluição sonora e atmosférica de HCMC, parti para o delta do Mekong. Os vietnamitas chamam o rio de Cuu Long ou Nove Dragões. Ele nasce nos nevados do Tibete e, depois de percorrer 4.500 km por seis países, desemboca em nove pontos diferentes no mar do Sul da China, criando uma planície de 40.000 km2, perfeita para a agricultura.
My Tho, a primeira cidade às margens do Mekong, está situada a apenas 70 km de HCMC. Uma caminhada pelo mercado ao lado do rio confirmou que a região merece o nome de “celeiro de arroz”. Vendedoras ofereciam uma dúzia de tipos diferentes do cereal, enquanto que carregadores enchiam uma barcaça com centenas de sacos. O Vietnã é o segundo produtor mundial de arroz e, de cada quatro sacas produzidas no país, três são provenientes dessa planície fertilizada pelo Mekong.
Só se pode visitar um mercado flutuante bem cedo pela manhã. Às dez horas, o movimento já terminou, pois ninguém é louco de ficar em pleno sol, mesmo se protegido pelo típico chapéu cônico de palha. Por isso, passei a noite em Can Tho, capital econômica do delta, pois o mercado mais interessante estava a poucas milhas, rio abaixo.
Ao raiar do sol, já estávamos em uma canoa. As águas barrentas do Mekong encontravam-se agitadas, tanto pelo contínuo tráfego fluvial como pela mudança da maré que avançava rio adentro. Chegamos em Cai Rang, o maior mercado flutuante do delta. Dezenas de barcos de médio porte estavam ancorados de um lado do rio, sem tocar a margem, enquanto que pequenas canoas navegavam ao redor. Cada barco vendia um ou dois produtos. Uma longa vara com uma fruta ou um legume amarrado na ponta, como se fosse uma bandeira, anunciava a especialidade. Os barcos desempenhavam o papel de atacadistas e as canoas, uma vez abastecidas, zarpariam pelas centenas de canais do delta para redistribuir os produtos frescos aos habitantes da região.
Encostamos em um dos barcos e fui convidado a subir. A embarcação era mais alta que nossa canoa e eu teria um melhor ângulo fotográfico. As cenas de compra e venda se repetiam à minha volta e cada transação merecia uma foto. Encantado pelo cenário dinâmico e colorido, nem me dei conta quando Nguyen, o dono do barco, apareceu com um abacaxi suculento, já descascado. Olhei para o alto da vara e lá estava um exemplar. Nguyen só negociava essa fruta e estava satisfeito com as vendas do dia. Foi um perfeito café da manhã e uma excelente prova da hospitalidade vietnamita.
De volta a canoa, seguimos pelos meandros dos canais em busca de uma ponte de macaco ou cau khi,em idioma local. Esse tipo de ponte é bastante estreita e é construída com apenas alguns bambus. Para que não se torne um perigo público, um corrimão oferece apoio aos que pretendem cruzar um dos inúmeros canais que existem no delta.
Perto de um pomar de lechia e rambutão, encontramos nossa primeira ponte de macaco. Seu nome inspira-se nos malabarismos necessários para cruzá-la, mas os locais não precisam fazer macaquices: vi um senhor atravessando a estreita ponte levando uma bicicleta no ombro e um jovem carregando um saco de arroz. Cruzaram com confiança, sem precisar sequer segurar o corrimão de bambu.
Foi essa mesma confiança que eu senti durante toda minha jornada. Embora o país tenha sido destruído por uma guerra que terminou apenas 30 anos atrás, seus habitantes só pensam agora no futuro. Enfocados no trabalho, eles começam a aproveitar da fartura que é oferecida pelas águas e terras ricas do Mekong.
publicado na revista Planeta, outubro de 2005
por Haroldo Castro, fundador do Clube de Viajologia e vice-presidente de comunicação da ong Conservação Internacional. O autor já visitou 126 países, como fotógrafo, jornalista e diretor de documentários.




