Rapa Nui: Glória e Colapso das Estátuas Gigantes

December, 2005

No meio do Pacífico, o pior desastre ecológico do planeta

Para acordar cedo, tenho que ter uma boa razão. Mas na Ilha da Páscoa, não tive dúvida. O primeiro levantar do sol precisava ser registrado. O local escolhido era excepcional: em frente aos gigantes de pedra de Tongariki.

O céu ainda estava na sua metamorfose inicial, mas eu já podia distinguir as 15 estátuas. Os moais davam suas costas ao Oceano Pacífico e estavam enfileirados lado a lado como um pelotão; o maior tinha dez metros.

As nuvens começaram a ganhar cores quentes, em tons que variavam do rosa ao laranja e ao amarelo. As luzes no céu davam um ar ainda mais dramático ao ambiente feérico das gigantescas estátuas.

Estáticos e temíveis, os moais contemplavam o vulcão Rano Raraku. Foi dessa montanha que saiu a pedra necessária para construir cerca de 900 estátuas, das quais 400 estão espalhadas ao redor da ilha e outras 500 ainda permanecem em Rano Raraku, inclusive a maior de todas, incompleta, medindo 22 metros. Os moais foram erguidos entre os anos 900 e 1620.

Caminhando em direção ao vulcão-pedreira, não pude deixar de me perguntar o que todos questionam quando chegam em Rapa Nui – nome nativo da ilha. Porque os primeiros habitantes, vindos de alguma ilha da Polinésia, resolveram construir essas estátuas gigantes? E porque essa mesma civilização mergulhou na decadência, até mesmo antes da chegada do primeiro europeu no domingo de Páscoa do ano 1722?

À medida que eu subia a encosta e que o sol me permitia descobrir a ilha, lembrei-me do que eu havia lido durante as cinco horas de vôo desde Santiago, em um capítulo do livro “Colapso” do antropólogo Jared Diamond. Toda a ilha tinha sido literalmente desmatada e hoje não existia nenhuma vegetação natural original. Apenas espécies de fora, invasoras. Todos os pássaros nativos também desapareceram. Rapa Nui pode ser considerado como o maior desastre ambiental do planeta.

Os responsáveis por terem dado uma forma humana estilizada a pedras pesando dezenas de toneladas – e ainda por cima, levantá-las na posição vertical  – também parecem ter sido os principais suspeitos desse colapso ecológico. No seu delírio de erguer cada vez mais e maiores moais, os antigos Rapa Nuis usaram um número crescente de recursos naturais e humanos. Quantas palmeiras não foram sacrificadas para se transformarem em artefatos roliços de transporte? Quantos quilômetros de cordas foram meticulosamente elaborados com fibras de árvores, apenas para arrastar os moais? Quantos braços não foram necessários para esculpir e transportar apenas uma estátua? Quantas calorias para alimentar essas centenas de bocas escravas e cansadas?

Para louvar seus antepassados, a classe dirigente de Rapa Nui não considerou a sustentabilidade e arruinou a existência de suas futuras gerações. Sem matéria prima, a cultura Rapa Nui entrou em declínio vertiginoso. Acabaram-se as árvores, as estátuas, os rituais de cremação, as canoas, a pesca e os alimentos. O canibalismo virou prática. Em 1872, sobreviviam apenas 111 nativos em estado deplorável e todos os moais haviam sido derrubados por clãs rivais.

Subi a encosta final de Rano Raraku com Raul Palomino, um chileno que vive a 22 anos na ilha. A conversa havia começado com a grandiosidade dos moais, mas estávamos discutindo o que ele fazia para reverter esse descalabro ambiental, existente há 400 ou 500 anos. “O nosso maior problema é evitar que a erosão se expanda. As encostas das montanhas estão comprometidas”, confessou-me o funcionário da Corporação Nacional Florestal (CONAF), órgão chileno que rege a política florestal e as 94 áreas protegidas do país. “Como não temos mais florestas, quando a chuva cai, a água que escorre para o mar é vermelha como sangue”.

Apesar da pequena área da ilha – apenas 164 km2 – a idéia de tentar reflorestar Rapa Nui pareceu-me como uma epopéia dantesca, quase que impossível numa escala humana. Mesmo assim, perguntei a Raul como ele faria. “Vocês teriam que começar do zero, não?”

Raul confirmou que, na natureza, nenhuma das 20 plantas nativas, incluindo uma palmeira gigante, parente da Jubaea chilensis de origem continental, havia conseguido sobreviver. “Mas ainda temos uma planta endêmica no nosso jardim botânico, a Sophora toromiro, um arbusto que chega a três metros de altura”.

No dia seguinte fomos visitar os sobreviventes. Dois adultos, protegidos por um muro de quase um metro de altura de pedra, eram tratados com o maior carinho por Raul. “Diariamente venho até aqui, converso com os toromiros e até canto umas músicas”. A terceira planta adulta encontrava-se na base naval chilena e, com permissão do comandante, Raul aproveitou para podar os galhos secos e sugerir que construíssem uma mureta mais alta para proteger a plantinha do vento salgado do oceano.

No viveiro da CONAF visitamos mais duas mudas de toromiro. Olhei para Raul e não pude me conter. “Não me diga que você quer reflorestar toda a ilha começando com essas cinco plantas”, perguntei, quase que em tom irônico. Ele respondeu, seguro de si. “Temos outras 20 mudas que foram distribuídas na cidade e os habitantes estão cuidando delas em seus próprios jardins. Eventualmente, as novas plantas darão sementes, estas germinarão e crescerão”. Fitei os olhos de Raul para me assegurar se ele estava ou não brincando comigo. “Mas isso pode demorar décadas”, argumentei, desanimado. “Sem dúvida, vai levar 20 ou 30 anos para que o toromiro volte a florir em toda Rapa Nui. Por isso, temos que começar o mais rápido possível, não é?”

publicado na revista PLANETA de dezembro de 2005
por Haroldo Castro, fundador do Clube de Viajologia e vice-presidente de comunicação da ong Conservação Internacional. Ele visitou 126 países, como fotógrafo, jornalista e diretor de documentários.

Receba as Estórias