Obrigado, Washington
April, 2007Uma carta de adeus à cidade que me acolheu por duas décadas
Esta crônica é diferente das demais que tenho escrito. Nos textos anteriores, precisei viajar – algumas vezes 20 mil milhas aéreas – para poder contar uma estória. Para esta, nem saí de casa, pois enfoco a cidade onde vivi durante 20 primaveras e que estou a ponto de deixar. Mais do que um texto factual ou turístico, esta é uma carta de despedida.
Querida Washington, ao longo deste relato, vou ser sincero e dizer coisas que nunca lhe disse antes. Começo por agradecer os bons momentos que passei por aqui. Ao chegar da metrópole paulistana, muito mais problemática do que você, fui acolhido por uma cidade arborizada, repleta de parques, repleta de museus, sem poluição visual (outdoors são proibidos) e onde as avenidas não são palcos de rixas automobilísticas. Vim para ficar um ano e você conseguiu me enrolar por duas décadas.
Cheguei numa primavera. Nunca tinha visto cerejeiras
em flor. Em abril de 1988, fui com a família passear em volta do lago Tidal, perto
do Memorial Jefferson, e fiquei boquiaberto. Eram centenas de árvores vestidas
apenas com delicadas pétalas brancas, com uma pincelada de rosa. Nenhuma
folhinha verde, apenas o manto alvo. Uma brisa um pouco mais ousada
transformava o ambiente em palco feérico e as pétalas voejavam como se fossem
flocos de neve. “Vocês precisam ver o bairro de Kenwood”, aconselhou a
brasileira Laura Silveira da Mota, a madrinha que nos deu as boas-vindas. E,
atravessando as ruelas ornadas de cerejeiras, descobri que eu chegava a uma
cidade onde existiam as estações do ano.
Seis meses depois, você me ofereceu outra surpresa. O outono, como se despedindo do verão caloroso, vestiu a cidade com cores ardentes. Bordos (aquela árvore cuja folha está na bandeira do Canadá) e carvalhos substituíram, como num passe de mágica, o verde de suas folhagens pelo amarelo, pelo laranja e pelo vermelho. Ao vagar por suas ruas, principalmente na área mais rica, a noroeste, você dava um espetáculo de cores. Quantas vezes não parei o carro para admirar esse fenômeno da natureza urbana. Os meus meninos tropicais passaram a colecionar folhas de cores diferentes.
“Vá até a Casa Branca e
descubra a árvore dourada”, indicou a fada madrinha Laura. Fui e encontrei um ginkgo biloba asiático, com suas folhas
em forma de leque japonês. A árvore estava toda banhada de amarelo ouro,
contrastando com o azul escuro do céu que anunciava o frio.
Washington, se seu frio me assustou – observei o termômetro chegar a menos 15 graus algumas vezes –, seu inverno também trouxe as brincadeiras com a neve. Construímos dezenas de bonecos gelados e foram incontáveis as guerras de bolas brancas. Reconheço que você ficava um pouco assustada com seus habitantes nessa época do ano. Com raras exceções, seus súditos, mesmo possuindo pesadas camionetes 4x4, são nulos no volante e a cada polegada de neve adicional o ruído de ambulâncias e bombeiros aumentava nas avenidas cheias de sal grosso. “Washington não sabe lidar com a neve; a cidade pára cada vez que caem cinco centímetros”, declarou Laura, como se recitasse seu manual de como viver na capital.
Mas você também nos ofereceu invernos brandos, sem aeroportos fechados. Esse que acaba de passar, apesar de ter tido picos de frio, também nos surpreendeu com dias a 22 graus, em pleno janeiro! Será que as mudanças climáticas já estão afetando você também?
Seu nome de batismo, Washington, foi sobrenome do pai da pátria norte-americana e seu sufixo, o tal do DC, lembra o genovês Colombo que cruzou o Atlântico norte. Como capital federal, você representa, de forma intrínseca, o poder. E nisso eu tenho sérias críticas a fazer. Você deixou que os políticos dos dois partidos – principalmente os republicanos – tomassem sua identidade e que seu nome fosse sinônimo de abuso, guerras e decisões absurdas. “Washington fez isso ou aquilo”, escrevem os jornais, esquecendo que foram seus vassalos ingratos que cometeram os erros.
Você também acolheu milhares de lobistas profissionais, interesseiros que freqüentam os suntuosos salões do Capitólio e dos hotéis cinco estrelas – daí vêm o nome lobby e lobista – para comprar e vender influências. Sem contar advogados de toda estirpe, verdadeiros tubarões que cobram 30 reais o minuto para aconselhar o grande capital. Certa vez ouvi que, de cada sete profissionais washingtonianos, um era advogado. Confesso: não vou sentir nenhuma saudade de estar longe desse povo.
Por outro lado, vou sentir falta de seu rio. Beirando
a margem esquerda do Potomac, o Canal Chesapeake & Ohio foi meu lugar
predileto para caminhar. Sempre que estava em Washington durante um fim de
semana, eu saía para a trilha desenhada entre o canal e o rio.
O canal de 300 quilômetros de extensão liga Cumberland, em Maryland, ao bairro de Georgetown, em Washington, DC. Foi construído no século 19 por imigrantes europeus como solução para contornar as cascatas e cachoeiras do Potomac. Meia dúzia de mulas puxavam uma barcaça que transportava 120 toneladas de mercadorias ou de carvão. O canal não é mais usado desde 1924 e em 1971 transformou-se em um parque nacional.
Orgulho-me de ter conhecido os 40 quilômetros iniciais
da trilha e os domingos mais ensolarados sempre me inspiraram a caminhar dez
quilômetros. Cheguei a traçar um mapa marcando as pontes, os marcos de milhagem
e as eclusas do canal. Meu trecho favorito é o que chega a Great Falls, onde as
grandes cascatas do Potomac mostram a personalidade selvagem do rio. No verão,
o canal transforma-se em um verdadeiro refúgio de vida selvagem. Já vi veado,
castor, raposa, garça, tartaruga e serpente. Tudo isso a poucas milhas da Casa
Branca.
Washington, você acolhe nacionais e estrangeiros como nenhuma outra cidade nos Estados Unidos – Nova York é hors-concours. Embaixadas de mais de 180 países e organismos internacionais, como Banco Mundial, FMI, Organização dos Estados Americanos ou Intelsat, trazem cérebros de todas as nacionalidades para trabalhar nas suas sedes. Ao passear pelo canal do Potomac, ouço francês, árabe e russo, e posso reconhecer sons asiáticos e dialetos africanos. Quanto ao espanhol, com tantos latinos residentes, legais ou não, é língua franca.
Seus restaurantes fazem jus a essa babel da globalização. Comida chinesa, tailandesa ou indiana são banais, encontram-se em qualquer esquina de bairro. Peculiar mesmo é desfrutar uma culinária tão diversa como a afegã (cujo pão é delicioso), etíope (come-se com as mãos) ou marroquina (com seu tradicional cuscuz).
De suas jóias, o Smithsonian é a mais preciosa. A
instituição, com um orçamento anual de um bilhão de dólares, zela por 19
museus, nove centros de pesquisa e um zoológico. Em exibições ou em subsolos, o
Smithsonian abriga mais de 137 milhões de peças, do chapéu de Indiana Jones ao
diamante Hope de 45,5 quilates. Sempre que chegava algum amigo de visita, eu me prontificava
a ser guia por algumas horas, disposto a subir escadarias e percorrer salões.
De
todos os museus, o mais querido é o de História Natural. A rotunda abriga uma
cópia perfeita de um elefante africano, com sua tromba levantada, como em
estado de alerta. Qualquer jornada pelo enorme edifício, construído há quase um
século, parte desse marco zero, rumo ao mundo dos mamíferos, às coleções de pedras
preciosas ou à exposição de fósseis.
Quando sobrava tempo, eu atravessava o gramado do Mall e aterrizava no Museu do Ar e do Espaço. Os animais aqui se transformaram em máquinas: aviões antigos, cápsulas espaciais e foguetes. Um fragmento de uma pedra lunar, como se fosse um magneto, atrai a mão bisbilhoteira de todo visitante. O museu se orgulha de ser o mais visitado em todo o mundo: por ano, nove milhões de curiosos vêm observar de perto seus engenhos voadores.
Contrastando com a grande maioria dos museus, a entrada nos prédios do
Smithsonian é grátis. Talvez uma maneira de agradecer a generosidade de seu criador,
o cientista inglês James Lewis Smithson. Ao morrer em 1829, deixou sua fortuna
ao sobrinho, porém com uma condição: se este não deixasse descendentes, a herança
(equivalente a 10 milhões de dólares de hoje) seria doada ao governo dos
Estados Unidos para fundar um estabelecimento dedicado à difusão do
conhecimento. Com essa doação, James Smithson, embora jamais tivesse cruzado o
Atlântico, marcou para sempre a cultura do país que viria a ser a potência do
século passado.
Enfim, Washington, me despeço e agradeço a você por ter me abrigado durante esses anos. Nunca tinha morado por tanto tempo em nenhuma outra cidade. Parto com saudades, mas também contente com a idéia de fazer novos amigos em outros horizontes. A verdade é que aqui foi difícil encontrar momentos de jogar conversa fora. Seus súditos mais fiéis só pensam em poder, fama e dinheiro. Falta leveza e joie de vivre. Por isso, quando você encontrar um tempinho, venha me visitar no Brasil. Você vai se assustar com a bagunça, mas vai adorar nossa alegria e entusiasmo.
Publicado na revista PLANETA de abril de 2007
Haroldo Castro, fundador do Clube de Viajologia, viaja como foto-jornalista e diretor de documentários. Ele residiu mais de 19 anos em Washington, DC.




