Guiana: Os Tesouros de Kanuku
May, 2005
Empoleirada
sobre a Amazônia brasileira, a Guiana – ex-colônia inglesa – concentra
na costa quase toda sua população de 750 mil pessoas. Por isso, o
interior não é somente pouco habitado, mas também é totalmente
desconhecido, até mesmo para os habitantes da capital Georgetown.
Minha oitava viagem à Guiana levou-me ao sul do país para filmar as montanhas Kanuku, uma ilha de floresta rodeada por um mar de savanas. Para os que vivem nessa área, esse maciço rochoso é sinônimo de abundância de vida. Três entre cinco pássaros da Guiana podem ser encontrados na região e mais de 150 espécies de mamíferos abrigam-se na floresta. Dezoito comunidades indígenas Macuxi e Wapixana vivem aos pés da montanha e utilizam o bosque para seu sustento. Uma montanha como esta deve ser celebrada, até mesmo louvada. E principalmente protegida.
Minha primeira visita às montanhas Kanuku data de 12 anos atrás, quando fiz parte de uma expedição científica, a primeira a constatar que as montanhas contêm a maior biodiversidade do país. Agora Kanuku me esperava com uma triste surpresa. Devido a uma forte seca, um calor de 400 C, um vento constante e algumas mãos incendiárias, Kanuku estava em chamas. Não havia nenhuma paisagem do maciço sem uma coluna de fumaça saindo da floresta. A situação piorava a cada dia, a fumaça aumentava e a visibilidade nos obrigou a adiar um sobrevôo.
Visitei várias comunidades indígenas para gravar depoimentos sobre a importância de Kanuku para a vida Macuxi e Wapixana. “Consideramos as montanhas como nossa mãe, ela nos dá tudo que precisamos”, admite Cedrick Buckley, professor da escola primária Macuxi no vilarejo indígena Shulinab. “Se não protegermos essas terras, nossos vizinhos irão destruí-la” relata George Tancredo, ancião de Nappi. Os “vizinhos” a quem George se refere são os garimpeiros brasileiros e venezuelanos. Os incêndios florestais, a mineração descontrolada e o desmatamento ilegal em Kanuku podem rapidamente denotar esse precioso e frágil ecossistema.
O governo da Guiana tenta, a mais de uma década, criar um sistema de áreas protegidas, uma espécie de IBAMA, mas esses esforços não conseguem sair do papel. Resultado, a Guiana é o único país do hemisfério ocidental a não possuir uma norma para parques nacionais – existe apenas um parque isolado, o das cascatas de Kaieteur.
As savanas de Rupununi que rodeiam as montanhas são também uma das regiões mais selvagens do planeta, com uma abundante fauna. Filmei seqüências lindas de um tamanduá-bandeira passeando pela planície e, graças a Rewa, gravei minhas melhores imagens de ariranhas. Rewa é uma ariranha que, quando jovem, foi criada junto aos seres humanos. Hoje vive solta no rio Rupununi com sua nova família de seis outros animais da mesma espécie. Como ela não tem medo dos humanos, ela acaba trazendo o resto da família com ela para perto das câmeras. O fantástico show da vida selvagem.
Tudo isso acontece bem pertinho do Brasil. Nossa base foi Lethem, uma vila de 2.500 habitantes, do outro lado da fronteira brasileira. De Lethem, basta cruzar o rio Takatu de canoa para chegar à Bonfim, Roraima. Quase todos em Lethem falam português e adoram guaraná.
Durante as entrevistas nas comunidades, no momento que os indígenas descobriam que eu era brasileiro, eles imediatamente falavam português comigo. Mesmo quando eu voltava ao inglês, para que os guianenses capitalinos pudessem entender o diálogo, os indígenas insistiam no português. Seus nomes e sobrenomes também eram bem familiares: Ribeiro, Lorentino, Cassiano ou Rodrigues. De vez em quando, mesmo estando num lugar tão afastado, a viagem nos dá essa sensação estranha de se sentir em casa.
O documentário Kanuku, Mountains of Life, dirigido pelo autor, será lançado em Georgetown, Guiana, no dia 24/5.
(publicado em VIAGEM E TURISMO em maio de 2005)




