Cuzco, Umbigo do Mundo
November, 2006Afinal, qual é a magia dessa cidade?
Todo viajólogo tem sua lista de países preferidos. Aliás, não só países – cidades, lugares e festivais. Estes nomes precisam estar na ponta da língua, pois em qualquer conversa mais profunda sobre viajologia, a pergunta sempre aparece.
Quando interrogado, dou respostas vagas, pois não existe apenas um paraíso nesse planeta. Listo um país por continente, conto que alguns – como Brasil ou Itália – são hors-concours e enrolo um pouco mais, propondo que Índia e China não podem ficar de fora; nem a Indonésia, pela sua variedade de ilhas.
Mas quando se trata de cidades preferidas – por mais carioca que eu seja – não posso evitar: minha mente regressa imediatamente a Cuzco.
Minha relação com essa cidade empoleirada na cordilheira andina é muito forte. Foi em Cuzco que deixei de comer carne e comecei a praticar yoga. Lá descobri a força dos Andes. Fotografei suas pedras incaicas, a arte colonial espanhola e os desafios de sua vida moderna. Estava em Cuzco quando terroristas do Sendero Luminoso explodiram um trem de turistas, quando o papa João Paulo II vestiu um poncho pela primeira vez e quando militares do governo Morales Bermúdez espancaram estudantes.
Sentado em algum banco da Plaza de Armas, o coração palpitante da cidade, parei várias vezes para refletir por que Cuzco me enfeitiçava tanto. Quando eu saía das minhas divagações, a resposta estava ali, à minha frente. Cuzco atraía, como se fosse um ponto magnético ou um chakra da Terra, gente de todo o mundo, de todas as raças. Os cuzquenhos confirmam essa vocação e explicam que qusqu, em idioma quéchua, significa centro ou umbigo. A antiga capital incaica era – e continua sendo – um Umbigo do Mundo.
Cheguei a Cuzco pela primeira vez em março de 1978. Pretendia passar duas semanas e fiquei três meses. Durante esse período, meu endereço era a própria Plaza de Armas: dormia dentro de uma Kombi azul, convenientemente estacionada do lado oposto da catedral. Quando consegui sair, deixei um filho: o restaurante vegetariano Pura Vida, no pátio colonial do Hotel de los Marqueses, que sobreviveu por uma década. Graças ao Pura Vida, provei variados pratos da culinária local e conheci todos os mercados cuzquenhos.
Sempre que retorno a Cuzco, mesmo se apenas por um dia, faço questão de reviver determinados cerimoniais. Tomo café-da-manhã no Mercado São Pedro – em frente à estação do trem que sai para Machu Picchu – e me delicio com dois enormes copos de suco de cenoura. Caminho pelas estreitas ruelas em busca da geometria incaica e não me canso de rever a pedra dos doze ângulos, parte do muro do palácio Hatunrumiyoc. Entro no Convento de Santo Domingo, não para visitar o santuário católico, mas para desfrutar do Qoricancha, o Templo do Sol. No final do dia, subo em direção a Saqsayhuamán e, desde a igreja de San Cristobal, quase como um condor, observo a cidade majestosa que começa a brilhar com suas luzes alaranjadas.
Minhas passagens por Cuzco me deram sempre a oportunidade de criar novos laços de amizade. A maioria foi com gente de fora, europeus ou latino-americanos. Mas um deles, um verdadeiro cuzquenho, me impressionou desde o primeiro encontro. Faustino Espinoza Navarro nasceu no início do século e, se estivesse vivo hoje, estaria perto de completar 100 anos de idade. Era um erudito. Junto a outros intelectuais cuzquenhos, Don Faustino fundou em 1953 a Academia do Idioma Quéchua, da qual foi presidente por vários anos.
Possuía uma lojinha de artesanato em uma das ruelas mais incaicas do centro, a Calle Procuradores. Sempre vestia um poncho bordado, nos tons vermelhos, e levava na cabeça um chullo, o boné andino de lã de lhama. Na sua mão direita, como símbolo de mando, portava um bastão de madeira nobre, com acabamento de prata. A maioria dos visitantes entrava na loja em busca de casacos de lã, ponchos, jóias de prata ou esculturas. Mas quem conhecesse um pouco mais Don Faustino, sabia que o tesouro a ser descoberto não estava nas prateleiras.
O velho sábio quéchua era um verdadeiro poço de conhecimento. Lembro-me de uma longa visita, quando eu buscava uma resposta menos convencional sobre as possíveis técnicas utilizadas pelos incas para cortar os enormes blocos de pedra. Nenhuma folha de papel e nem mesmo um fio de cabelo podem penetrar nas frestas entre duas pedras. O encaixe é perfeito. Mas os arqueólogos insistiam que tudo era produzido apenas com cinzel e mãos fortes.
“Os incas cortavam a pedra com se ela fosse um pedaço de manteiga”, rebatia Don Faustino. “Eles usavam um ingrediente que amolecia a rocha”. Don Faustino esteve a ponto de descobrir a “receita” várias vezes, mas ele admitia que nunca chegou a conhecer o mistério. “Certa vez, um campesino, que dizia saber o enigma, disse que iria me levar a um lugar onde eu poderia compreender o que os incas faziam. Como o local era longe da comunidade, marcamos encontro para o dia seguinte às 5 horas da manhã. Mas ele nunca apareceu. Aliás, nunca mais pude encontrá-lo”.
Don Faustino acreditava que essa poção fosse preparada com uma mistura de vegetais. Contava que, certa vez, ouvira uma estória sobre uma espécie de pássaro andino que utilizava plantas para construir seu ninho na rocha. A ave picava a pedra e usava as plantas para abrandar a rocha. Mas a teoria nunca foi confirmada.
Gostoso mesmo era ouvi-lo articular o quéchua clássico, não o idioma popular, falado nos mercados andinos. “Ama sua, ama llulla, ama qella”, dizia ele como se estivesse declamando uma poesia. “Este era o lema incaico, tão válido hoje como há 500 anos. Significa não roube, não seja preguiçoso e não minta. Bom seria se nossos governantes seguissem esses princípios”, lamentava.
Don Faustino se orgulhava também de ter sido o primeiro Inca moderno. “Nos anos 40, resolvi estudar as crônicas de Garcilaso de la Vega que descreviam a cerimônia incaica do Inti Raymi, a festa do sol. Inspirado, escrevi o roteiro do que passaria a ser o novo festival”. Em 1944, Faustino entrou em cena pela primeira vez como personagem principal e seu porte nobre e voz profunda o fizeram guardar a função de Inca moderno durante 14 anos seguidos.
Assim como o Inti Raymi atual, o antigo festival do sol era realizado no dia 24 de junho, em Saqsayhuamán, a menos de um quilômetro da Plaza de Armas de Cuzco. Celebrava a entrada do inverno – momento que o sol está mais distante – e comemorava, com alegria, o retorno do astro, pronto para esquentar novamente a terra.
Era a mais importante festividade na época dos Incas. Súditos vindos dos quatro cantos do Tawantisuyu, a confederação incaica, congregavam-se no Umbigo do Mundo para marcar o início de um novo ano agrícola e celebrar a origem mítica dos Incas. A História relata que o último evento a contar com a presença de um imperador Inca aconteceu em 1535. Nas décadas seguintes, o poder da igreja católica proibiu a realização da festa, por considerá-la pagã.
Documentei duas vezes o Inti Raymi moderno e confesso que fiquei impressionado quando vi uma multidão de dezenas de milhares de pessoas rodeando as edificações gigantescas de Saqsayhuamán. Como não chovia nesse dia, o brilho do evento parecia ser ainda maior: o sol flamejava com vigor e as cores fortes das vestimentas incaicas contrastavam com o azul profundo do céu.
Antes de chegar às ruínas, o cortejo do Inca parou em uma das praças de Cuzco. Diante do prefeito da cidade, o Inca, escolhido para representar essa função por suas qualidades pessoais e sua integridade, fez um pronunciamento firme: “Os dirigentes devem sempre governar lembrando-se dos valores tradicionais e usando justiça e sabedoria”. Em Cuzco, no dia 24 de junho, o novo Inca tem mais autoridade que os governantes eleitos e a mensagem do soberano se torna um ponto de referência para o público local.
Graças à idéia de Don Faustino, o Inti Raymi voltou a ser o festival mais importante de Cuzco. Milhares de pessoas, agora não somente das quatro regiões do Tawantinsuyu, mas dos cinco continentes, se concentram para reviver a mitologia andina. Além de trazer dólares e criar empregos, o Inti Raymi veio reafirmar as raízes ancestrais, reconhecendo a força do sagrado.
A verdade é que Cuzco não é uma cidade qualquer. Impossível sair de lá a mesma pessoa, sem sequer uma pequena transformação. Visitar o Umbigo do Mundo é como aceitar um convite para romper barreiras internas, ir além do nosso quotidiano racional e criar oportunidades únicas para empreender mudanças na alma. Como uma peregrinação, ir a Cuzco é como acolher um chamado direto do coração, o coração dos Andes.
Quase trinta anos depois da primeira visita, agradeço essa cidade por ter me albergado durante mais de seis meses, em muitas ocasiões. Gosto tanto de Cuzco que até pensei em me tornar um residente oficial. Mas, pensando bem, teria sido um erro trocar o encanto das visitas mágicas pelas dificuldades do dia-a-dia de uma cidade de província peruana. Prefiro continuar a degustar as maravilhas de Cuzco como se estas fossem um raro licor, um néctar dos deuses, a ser saboreado com requinte e moderação.
publicado na revista PLANETA de novembro de 2006
por Haroldo Castro, fundador do Clube de Viajologia, visitou 131 países, como fotógrafo, jornalista e diretor de documentários.




