Cruzeiro no Caribe

March, 2007

Os custos ambientais de uma pechincha tropical

Destiny em st. thomas

Mais de 12 milhões de passageiros embarcarão em um cruzeiro em 2007. É o setor turístico que mais cresceu nos últimos 35 anos, com um aumento de 2.400%. E continua proliferando. Hoje, o Freedom of the Seas, o maior navio do mundo, é quatro vezes maior do que o Titanic e tem a capacidade de transportar 4.300 passageiros e 1.300 tripulantes. Uma verdadeira cidade sobre as águas. Mas como foi que tudo isso aconteceu?

A primeira metade do século passado foi marcada pela era dos grande transatlânticos. Mauretania, Majestic, Normandie e Queen Elizabeth foram nomes que simbolizaram a conquista dos oceanos e uma travessia elegante entre Europa e Estados Unidos.

Foi durante o reinado do Queen Elizabeth como a maior embarcação do planeta – mandato este que durou mais de meio século, de 1940 a 1996 – que as linhas marítimas foram trocadas pelas rotas aéreas. Com o aparecimento do primeiro jato comercial em 1948 e com o sucesso do Boeing 707 nos anos 60, nossos conceitos de viagem se modificaram radicalmente. Já não precisávamos de semanas para cruzar de um continente a outro, apenas horas. Enquanto os aeroportos se multiplicavam, os navios de passageiros perdiam sua função.

Para reverter a situação que ameaçava a navegação, foi estabelecida uma nova modalidade de viagem, resgatando os sonhos e o romantismo proporcionado pelos ares marinhos. Assim nasceu o cruzeiro, a viagem de navio sem um destino específico, apenas pelo prazer de estar a bordo.

No início, o cruzeiro era considerado como turismo de luxo, reservado apenas para milionários. Hoje está ao alcance de muitos. Setenta e seis novas embarcações ingressaram no mercado desde a virada do milênio. Com tanta oferta, a concorrência feroz entre as companhias de cruzeiro provocou a redução de preços e multiplicou as oportunidades.

Conferi no Google e na ponta do lápis e descobri que, mesmo com a alta do petróleo, os cruzeiros no Caribe são oferecidos a preços de liquidação. Com 100 dólares por pessoa, por dia, eu poderia adquirir uma passagem repleta de promessas. Comida farta e gratuita a qualquer hora, um porto novo a cada dia, ambientes de luxo, a sensação de ser tratado como VIP, música ao vivo e shows estilo Las Vegas. Tudo incluído numa só viagem. Uma proposta difícil de ser superada.

Embarcamos no Carnival Destiny, aquele mesmo que, em 1996, desbancou o Queen Elizabeth de seu título mundial. Quando vi o gigante branco ancorado em San Juan de Porto Rico confesso que fiquei boquiaberto. Um superlativo dos oceanos, o Destiny possui 12 andares, uns 20 elevadores, 1.321 cabines, quatro piscinas, um atordoante cassino e vários bares, restaurantes e auditórios. Para se movimentar, ele consome 70 mil litros de combustível por hora.

O dia típico a bordo começava com um farto café da manhã e a chegada a algum porto. Boa parte dos passageiros opta por escolher uma das 20 excursões organizadas para visitar a ilha. “A empresa trata de recuperar o dinheiro que não ganhou na passagem com as excursões à terra”, confirma um oficial que preferiu não ser identificado. “O cassino, os coquetéis e as compras duty free dentro do barco representam outras maneiras para compensar o bilhete barato”.

Diariamente – e durante quase todo o ano – vários barcos atracam nas ilhas escolhidas. Os portos mais visitados podem receber mais de cem barcos por mês, uma média de 10 mil visitantes diários. Com tanta gente de férias, de bom humor e ávida para gastar dinheiro, os portos do Caribe se transformaram em um mercado onde são vendidos, com o mesmo sorriso, diamantes e camisetas. Mas, no final, os passageiros deixam muito mais dinheiro com as multinacionais de jóias do que com o comércio local.

A estratégia do viajante que quer conhecer a ilha é atravessar as lojas turísticas sem olhar para os lados e sair do porto para buscar algum meio de transporte. A minha opção foi alugar um carro e sair para descobrir o pequeno paraíso. Dessa forma, tive a oportunidade de melhor conhecer os habitantes do lugar e sentir um gostinho de cada ilha. Mesmo se milhares de turistas desembarcavam ao mesmo tempo, era possível visitar algum recanto singular e encontrar outros passageiros apenas no momento de retornar ao porto.

Nessa viagem, o Destiny passou por quatro ilhas do Caribe Oriental. Barbados é sofisticada e rica, com belas praias selvagens no Oceano Atlântico e um jardim botânico charmoso. Saint Thomas, uma das Ilhas Virgens dos EUA, é um paraíso natural, com um povo ameno e uma das praias mais bonitas da região, a baía Magen. Aruba é uma ilha árida, com águas incrivelmente turquesas; as árvores contorcidas do parque nacional Arikok são uma ode à força do vento. Dominica é uma ilha vulcânica com abundante vegetação natural; dos momentos em terra firme, as oito horas em Dominica foram as melhores.

No final de cada tarde, voltávamos ao navio com muito apetite. Com tanta comida variada e gratuita, o Destiny se transformava numa gigantesca cozinha e dispensa abarrotada. Bastava escolher o cardápio: pizza, sushi, comida chinesa, saladas, pasta, sanduíches e até mesmo hamburgers de soja para os vegetarianos. Sobremesa? Sorvete 24 horas por dia e sem limite – a não ser o da consciência de cada um.

Gostoso também era assistir a saída do barco, do alto de uma das pontes, perto da gigantesca chaminé. O ritual fotográfico acontecia na hora do por do sol, quando as cidades caribenhas recebiam pinceladas de cores quentes e eram acariciadas pela brisa morna e romântica. O tradicional apito rouco do navio indicava a hora dos gestos de adeus. Mas antes que uma sensação mais nostálgica tomasse conta de mim, uma envolvente banda de reggae me fazia voltar ao presente.

Em qualquer cruzeiro, o mantra é diversão. A indústria do entretenimento toma força em alto mar: o cassino abre, o bingo oferece prêmios e os bares aliciam com seus drinks tropicais. A noite, depois do jantar, é o momento do auge: um show com muita purpurina, luzes de cabaré e névoa artificial. Outros navios, como o Celebrity Constellation, proporcionam atrações menos bregas e mais criativas, como o Cirque du Soleil.

Nos elevadores e corredores, notei o óbvio. O ar condicionado estava sempre no máximo, com a temperatura chegando a um frio desconfortável. Como os norte-americanos são viciados em tudo que é gelado e como somam 85% dos passageiros de cruzeiro, quem decide o termômetro são eles. Mas todo esse frio e essa energia elétrica utilizada significam também um alto consumo de óleo combustível.

O último dia do cruzeiro foi no alto mar, para regressar a San Juan. Esse foi o único momento que senti que outras 3.400 pessoas dividiam o mesmo programa que eu. Todas as piscinas, jacuzzis e cadeiras longas estavam entupidas de gente. Mas as pessoas estavam felizes. “Durante uma semana não precisei cozinhar, passar roupa e cuidar da casa”, disse aliviada a porto-riquenha Mercedes. “Esse é meu terceiro cruzeiro e foi festa todos os dias”, revelou Robert Howard, um jovem americano de New Jersey.

Impressionado com os números da indústria de cruzeiros e preocupado com seu impacto ambiental, aproveitei esse dia sem praia para conversar com Antonio Donatti, o oficial a cargo das questões ambientais do Destiny. O diálogo com o oficial italiano me confirmou que esse tipo de turismo provoca um enorme impacto ambiental. Ele admitiu que sua empresa Carnival Cruise Line foi multada de 18 milhões de dólares em abril de 2002 – uma das maiores para barcos de cruzeiros – por ter despejado ao mar águas de sentina (águas misturadas à diversos óleos) sem usar os equipamentos de prevenção contra poluição. Para complicar, a companhia foi acusada de ter falsificado seus livros de operação para camuflar o fato. “A posição de oficial ambiental foi criada a partir deste incidente”, esclareceu Donatti.

Todas as grandes linhas de cruzeiro já levaram pesadas multas e, face a essa tensão, precisam investir em sua “imagem verde” e buscar certificados como ISO 14001. Para mitigar qualquer ataque da opinião pública, também criam parcerias “estratégicas” com organizações ambientais. Porém os desafios, inerentes ao próprio setor, continuam enormes. Como proceder corretamente com as águas poluídas? E com os lixos sólido e tóxico? E com as emissões de gases que contribuem às mudanças climáticas?

Ao chegar a San Juan, ainda que satisfeito com a viagem, me perguntei se essa atividade é mesmo sustentável. E por quanto tempo? Mesmo que as empresas consigam encontrar soluções temporárias aos desafios ambientais, um outro problema permanece: a quantidade de combustível necessária para fazer essa máquina flutuante funcionar está fora da realidade do século 21. O Freedom of the Seas consome 100 mil litros de combustível por hora. A cada aumento de preço do barril de petróleo, o minuto a bordo fica mais caro. E se as reservas de óleo cru estão diminuindo, não seria natural pensar que os cruzeiros, na próxima década, deixem de ser viáveis economicamente?

Porém, esta não parece ser a previsão das empresas, pois nove grandes barcos entrarão em serviço em 2007.

Se você quiser curtir um cruzeiro a preço reduzido, ainda é tempo. Mas meu palpite é que, durante os próximos anos, o crescimento desenfreado desse setor venha transformar essas viagens em um empreendimento ecologicamente insustentável. Afinal, de que adianta passear num esplêndido navio, cheio de belas luzes néon, e descobrir que seu impacto ambiental – de águas contaminadas a lixos tóxicos – está contribuindo com a destruição dos mares do planeta?


IMPACTOS AMBIENTAIS SÃO CONSIDERÁVEIS

Vultosas multas às linhas de cruzeiros não são raras. Segundo o website cruisejunkie.com, a Cunard Line pagou 23,5 milhões de dólares após o Royal Viking Sun ter destruído corais no Golfo de Aqaba, no Mar Vermelho. A Royal Caribbean Cruises foi multada quatro vezes entre 1998 e 2000, em um total de mais de 30 milhões de dólares, por ter jogado ao mar águas poluídas e tóxicas e, em seguida, ter falsificado documentação. Mais recentemente, em janeiro último, a Princess Cruises teve de desembolsar 750 mil dólares por ter matado uma baleia no Alasca em 2001.

Os principais impactos ambientais são:


publicado na revista PLANETA de março de 2007

por Haroldo Castro  Fundador e presidente do Clube de Viajologia, ele visitou 132 países, como fotógrafo, jornalista, diretor de documentários e conservacionista.

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