À procura da maior flor do mundo em Bornéu
March, 2006Encontro com orangotangos e macacos narigudos de Sarawak
Palavras como Bornéu e Sarawak fazem qualquer aprendiz de aventureiro sonhar. Soam como selvas impenetráveis, habitadas por caçadores de cabeças e animais estranhos. Mas no século 21, nem a terceira maior ilha do mundo (Bornéu) escapa dos contrastes da nossa civilização.
Eu jamais poderia esperar que Kuching, a capital do estado malaio de Sarawak, abrigasse tantos prédios modernos, museus e... estátuas de gatos. A explicação dos felinos gigantes me foi rapidamente dada. “Kuching em malaio significa ‘gato’ e por isso temos tantos monumentos coloridos”, me disse Sally Sheriza.
Sally Sheriza e Elaine Tan trabalham na Sarawak Forestry, uma empresa de propriedade do governo estadual que cuida tanto da comercialização da madeira (é a principal receita de Sarawak, o maior estado da Malásia) como dos parques nacionais e de sua biodiversidade. Com elas, fui visitar a reserva natural Semenggoh, um centro de reabilitação de orangotangos, que está a 24 km de carro de Kuching.
Durante o trajeto, elas me explicaram como a corporação opera, buscando realizar o sonho - na minha opinião, quase utópico - de explorar florestas tropicais de forma sustentável. A conversa foi animada, mas no final continuei achando que existe um tremendo conflito de interesse na empresa, pois conservação da biodiversidade não combina com extração madeireira.
Chegamos bem antes do lanche vespertino. Duas vezes ao dia, alguns dos 22 orangotangos que vivem soltos na reserva podem degustar batata-doce, cana-de-açúcar ou banana, oferecidas pelos guarda-parques. “Quando existe muita fruta na floresta, é raro que eles busquem alimentos conosco” explicou Jen Sangel, gerente do parque. “Nunca sabemos quem aparece”.
Os orangotangos – em malaio ‘orang-utan’ significa “pessoa da floresta” – vivem, de fato, no topo das árvores. Toda noite constroem um ninho com galhos entrelaçados e preparam uma plataforma onde podem descansar. Há milhares de anos, os orangotangos povoavam a Ásia. Hoje, devido à destruição de seu habitat, os orangotangos estão ameaçados de extinção e são encontrados apenas nas ilhas de Bornéu e Sumatra.
Apesar de estarmos na época das frutas selvagens, seis orangotangos apareceram para a boca livre. Três fêmeas e seus filhotes encontraram galhos a dez metros de altura e aguardaram os guarda-parques lançarem uma batata-doce para cada. Enquanto as mães comiam o tubérculo com tranqüilidade, confortavelmente sentadas sobre uma forquilha, os jovens aprendiam a saltar de galho em galho. Os visitantes apreciavam o espetáculo natural, boquiabertos com o comportamento quase-humano de um de nossos parentes mais próximos.
A segunda reserva que visitamos é uma jóia à beira do mar. Bako, a uma hora de carro e 30 minutos de lancha de Kuching, foi o primeiro parque nacional a ser criado em Sarawak, há quase 50 anos. Como está na ponta de uma península e não possui acesso rodoviário, Bako se protegeu naturalmente e virou uma atração para os estrangeiros. Mais de 70% dos 25 mil visitantes anuais vêm de fora para conhecer suas praias, trilhas e vida selvagem. “Temos muitos manguezais e conseguimos manter uma população saudável de proboscis, o macaco-narigudo”, explicou Saili Aban, gerente do parque.
Endêmico à ilha de Bornéu, o macaco-narigudo é um dos primatas mais espetaculares do planeta. No final da tarde, encontramos um bando de 40 macacos deliciando-se com as folhas tenras do mangue. Além do avantajado nariz avermelhado, o que mais me impressionou foi a musculatura de suas pernas. No manguezal, mostraram-se exímios acrobatas, conseguindo pular de uma árvore à outra com admirável destreza, além de serem excelentes nadadores. Poderiam também ser chamados de barrigudos, pois a pança deles é colossal, uma necessidade para poder digerir uma grande quantidade de folhas e sementes. São campeões em peidos. “Não podem comer frutas maduras e morrem quando ingerem qualquer tipo de açúcar”, esclareceu Aban.
O último parque a ser visitado em Sarawak foi Gunung Gading, um dos poucos lugares onde pode ser encontrada a rafflesia, a maior flor do mundo. Das 18 espécies diferentes dessa planta parasítica, oito podem ser encontradas em Bornéu, as outras na península da Malásia, em Sumatra e nas Filipinas.
Durante os últimos 12 meses, apenas 37 flores, sempre da mesma espécie - Rafflesia tuan-mudae -, haviam sido encontradas em Gunung Gading. A equipe do parque percorre diariamente as trilhas em busca dessa preciosidade que atrai tanto botânicos como turistas. Podem achar até seis flores em um mesmo mês, mas já fazia 29 dias que ninguém havia descoberto nenhuma rafflesia florida.
Foi Oswald Braken, um dos responsáveis pela conservação da biodiversidade de Sarawak, quem me deu a boa notícia. “Acabo de receber uma mensagem no celular dizendo que acharam hoje de manhã uma rafflesia que não estava nas trilhas usuais. Partiremos amanhã cedo para o parque”.
Logo que chegamos na sede, o grupo saiu ansioso para ver a rafflesia. Mas Braken queria que o prazer da busca se prolongasse um pouco mais e resolveu fazer um desvio, barranco acima, para mostrar os restos mortais da última flor. O biólogo explicou como a planta, que não tem folhas, tira seu sustento de uma trepadeira. “A flor também emana um forte cheiro de carne podre que atrai insetos que servem de alimento”, relatou Braken, aproximando das nossas narinas o que sobrava da flor.
Caminhamos mais uma meia hora mato adentro, todos encharcados de suor. Finalmente, as cinco pétalas gigantes apareceram. Sua cor alaranjada contrastava com o verde da floresta e o marrom das folhas secas. Braken tirou a fita métrica do bolso e declarou: “Cinquenta e oito centímetros, tamanho médio. A maior que encontramos até agora media 99 cm. E são pesadas: essa flor deve ter uns cinco ou seis quilos”.
A rafflesia é totalmente protegida em Sarawak e sua flor leva nove meses para se desenvolver, consumindo um tremendo esforço para alcançar esse tamanho. “O mesmo tempo que uma gestação humana, mas o resultado”, disse Braken, apontando para a flor, “é maior e mais pesado do que um bebê”. Entretanto, sua vida é bem mais curta que a nossa: a rafflesia vive apenas seis dias.
publicado na revista PLANETA de março de 2006
Haroldo Castro, fundador do Clube de Viajologia e vice-presidente de comunicação da ong Conservação Internacional, viajou à Malásia para participar da "Cúpula Internacional de Mídia e Meio Ambiente". Ele visitou 129 países, como fotógrafo, jornalista e diretor de documentários.




